A carruagem com o bras?o da família Wolford avan?ava pelas estradas pavimentadas. A viagem até a Capital Real durou três dias. Diferente do que eu temia, a viagem n?o foi tensa. Meus pais n?o me interrogaram sobre a mudan?a brusca na minha aura ou o porquê da minha mana ter disparado. Ao invés disso, eles brincaram comigo, riram e contaram histórias sobre a funda??o de Eldória. Por um momento, eu pude ser apenas uma crian?a de cinco anos viajando com as pessoas que mais amava.
Quando finalmente cruzamos os port?es da Capital, meus olhos se arregalaram. Era enorme! As ruas eram limpas, as casas possuíam vitrais coloridos, e o comércio fervilhava com mercadores de todos os cantos do continente de Leunders. Dei uma volta rápida com os guardas pela tarde, absorvendo cada detalhe. Foi uma experiência incrível.
Ao entardecer, voltamos para a nossa propriedade na capital. Tomei banho, vesti as roupas de seda que Laila havia preparado e fomos para o Palácio Real celebrar o aniversário de cinco anos da Primeira Princesa, Telestia von Eldória.
Se a cidade era linda, o palácio era deslumbrante.
O sal?o de baile possuía lustres de cristal que pareciam estrelas capturadas, e o ch?o era de um mármore t?o polido que refletia o show de luzes mágicas no teto. O local estava lotado de nobres engravatados e damas em vestidos luxuosos. Mas o que mais me chamou a aten??o foi como todos abriam caminho e curvavam-se profundamente quando meu pai e minha m?e passavam. O respeito era absoluto. Ali, eu vi de perto a prova do rumor: Shin e Sara eram lendas vivas.
Aproveitando que eles estavam sendo bajulados pelos duques, escapei de fininho para a mesa de buffet. Peguei um petisco de carne e um copo de suco de frutas. Fui me sentar em um banco afastado, mas assim que me acomodei, meus pelos da nuca se arrepiaram. Minha Percep??o 20 gritou. Senti uma presen?a incrivelmente densa, no mesmo nível de poder do meu pai.
Olhei para trás, tenso, mas n?o vi nada.
E ent?o, como se tivesse se materializado do ar, uma garota apareceu sentada bem ao meu lado.
Ela era absurdamente bonita. Seus cabelos eram prateados, em um tom de cinza brilhante, adornados por mechas azuis naturais que lembravam o brilho da lua cheia. Seus olhos tinham uma cor púrpura penetrante e misteriosa, que me encantou sutilmente. Fiquei a encarando com cara de bobo.
— Oi... Oiiii! Você está bem? — ela quebrou o silêncio, acenando a m?o na frente do meu rosto.
Pisquei, recuperando a compostura e for?ando meu refinamento nobre.
— Perd?o. Meu nome é Igris! Igris Wolford. Sabe, você me assustou um pouco. Você é uma bela dama, posso saber o seu nome?
Ela sorriu abertamente, sem a falsidade típica dos nobres.
— Prazer em te conhecer! Meu nome é Saphira. Saphira Silford. Sou a primeira princesa e herdeira do Reino de Sentostela. Bom, é isso. E você? O que faz?
Arregalei os olhos, impressionado, mas mantive a humildade.
— Eu sou apenas um simples guerreiro em treinamento. Mas estou encantado com a sua posi??o. Qual seria o motivo de uma futura rainha falar com um mero plebeu como eu?
Ela deu uma risadinha, inclinou-se para frente e sussurrou:
— é porque o seu Nível 2 me chamou a aten??o...
Meu sangue congelou.
Nível 2. Ela sabia. Ela via o Sistema.
Como?! O quanto ela sabe? Ela tem o mesmo poder que eu?! Mil perguntas explodiram na minha Inteligência 20. Eu abri a boca para interrogá-la, mas fomos interrompidos por uma voz anasalada e irritante.
— Ora, ora, ora! Senhorita Saphira Silford, que alegria imensa ver a senhorita com t?o boa saúde!
Era um garoto gordinho, com o nariz empinado e roupas espalhafatosas. Gorgius Corgino. Dava para ver de longe que ele gostava da Saphira, mas ela apenas acenou a cabe?a educadamente, sem dizer um pio, e virou o rosto de volta para mim. Uma rejei??o silenciosa e letal.
Gorgius ficou vermelho de raiva. Ele apontou o dedo rechonchudo para o meu rosto.
— Você! I-Igrela, ou sei lá o seu nome! Eu te desafio a um duelo de espadas de madeira! Aqui e agora!
Minha vontade era de rir alto. Saphira n?o teve o mesmo controle e soltou uma gargalhada genuína, o que deixou o garoto ainda mais furioso. Aceitei com um sorriso ir?nico.
Os guardas do sal?o rapidamente limparam um espa?o. Gorgius pegou uma espada de treino clara. Eu fui até o suporte e peguei uma escura.
Ele achava que era esperto. A espada dele era de carvalho comum (extremamente leve). A que eu peguei, para "diferenciar", era de carvalho negro (densa, pesada e difícil de manusear). Ele estava trapaceando contra o que achava ser um garotinho fraco.
Se eu fosse um garoto normal, eu mal conseguiria erguer a espada de carvalho negro. Mas com os meus 40 pontos de For?a cravados no limite do Nível 2, eu a empunhei com uma única m?o, perfeitamente equilibrada e imóvel. As testas dos guardas suaram ao ver aquilo.
Minha m?e, Sara, deu um passo à frente, com um sorriso de canto. Ela seria a juíza.
— Comecem! — ela ordenou.
Fiquei parado, esperando pacientemente. Gorgius gritou e avan?ou com um corte desajeitado. No último milissegundo, ergui a lamina negra.
CRACK!
A espada de carvalho dele estilha?ou no ar ao se chocar contra a minha defesa impenetrável. Aproveitando o embalo dele, dei uma rasteira simples. Ele caiu de cara no mármore polido, choramingando.
Stolen content warning: this content belongs on Royal Road. Report any occurrences.
Saphira come?ou a rir de novo, e minha m?e mordeu os lábios para disfar?ar o próprio riso. O sal?o bateu palmas. A humilha??o de Gorgius foi completa.
Mas a alegria n?o durou sequer mais um segundo.
BOOOOOOM!
Uma explos?o massiva destruiu os enormes vitrais do teto. Vidro choveu sobre os nobres. Gritos de panico rasgaram a música. Da fuma?a negra que desceu, várias pessoas encapuzadas aterrissaram no sal?o. Suas laminas já estavam sujas de sangue. A Organiza??o das Trevas. Sanguinários contratados que preferiam explodir o próprio cora??o a serem capturados.
O último a aterrissar pelo teto fez o ar ficar rarefeito. A aura dele era doentia, pesada e perturbadora.
O caos tomou conta.
— Igris! — a voz do meu pai, Shin, cortou o barulho como um trov?o. Ele já estava com o cajado em m?os, seus olhos brilhando em puro poder. — Cuide da Saphira e da Família Real! Leve-os para trás do trono! A vida do nosso rei está nas suas m?os, eu confio em você!
— Sim, senhor! — gritei, segurando a m?o de Saphira e correndo até onde estavam o Rei Aldric, a Rainha Angela, a Princesa Telestia e o Príncipe Gustavo.
Encurralados perto do trono, éramos nós seis. Dali, eu pude assistir ao verdadeiro poder das Lendas de Eldória.
Minha m?e sacou sua espada prateada. Seus Circuitos Mágicos Amarelos pulsaram. Para o choque de muitos, ela canalizava Magia de Fogo puríssima pela lamina, algo incrivelmente instável, e a dominava com uma maestria insana. Ela fatiou três assassinos como se fossem manteiga.
Meu pai conjurava n?o uma, mas três magias elementais simultaneas de Vento, criando barreiras que desviavam projéteis e lan?ando tornados afiados que rasgavam as armaduras de couro dos inimigos. Eles lutavam em uma sinergia perfeita, cobrindo os pontos cegos um do outro. Era uma dan?a mortal. Os encapuzados caíam como moscas.
Mas ent?o, o assassino da aura perturbadora se moveu. Em um piscar de olhos, ele dizimou a guarda real de elite.
Ele parou no meio do sal?o de sangue. Shin e Sara se posicionaram lado a lado, ofegantes, mas implacáveis.
O encapuzado jogou o manto para trás. Meu cora??o parou.
Os cabelos dele eram roxos, exatamente como os do meu pai. Os tra?os do rosto eram idênticos, mas distorcidos por uma loucura visceral. A express?o dos meus pais desmoronou, passando de determinada para aterrorizada.
— Olá, meu irm?o! — a voz dele ecoou, calma e assustadora. — Lembra de mim, maninho? Sou eu! Zack Wolford. Ah, e oi, Igris, meu sobrinho querido!
Zack Wolford. A ovelha negra. A Lenda dos Circuitos Vermelhos.
A aura dele explodiu. O mármore aos pés dele rachou.
A batalha que se seguiu queimaria na minha memória para sempre.
Zack levantou a m?o. Sem sequer usar um cajado, ele conjurou cinco magias destrutivas ao mesmo tempo. Era impossível. Ele humilhou meu pai na própria especialidade. Sara tentou anular os ataques com rajadas contínuas de fogo, mas Zack avan?ou em uma velocidade que nem a minha Percep??o 20 ou Agilidade 40 conseguia rastrear.
Ele transformou um bast?o de ferro maci?o em uma espada incandescente e bateu de frente com a minha m?e. Ele a humilhou na esgrima. Cada golpe dele era pesado demais, rápido demais. Com um estrondo, a espada prateada da minha m?e, a Lamina da Vice-Comandante, quebrou ao meio.
Ela caiu de joelhos.
— M?E! — gritei, dando um passo à frente.
Zack n?o hesitou. Com um sorriso sádico, ele cravou uma adaga flamejante direto no cora??o dela, bem na minha frente.
O corpo da minha m?e tombou no ch?o frio.
Meu pai perdeu completamente a sanidade. Shin Wolford gritou de dor e avan?ou de forma suicida. Ele ia morrer. Era óbvio.
Minha mente genial, meus atributos maximizados, nada disso importava. Eu era uma crian?a vendo o mundo acabar.
"Fique aí! Proteja a realeza!", a última ordem racional do meu pai ecoou na minha cabe?a, mas o meu cora??o me fez desobedecer.
Eu larguei a m?o de Saphira e corri em disparada na dire??o do meu pai, as lágrimas emba?ando a minha vis?o. Eu ia salvá-lo! Eu tinha que salvar ele!
— PAI, CUIDADO! — berrei.
Shin olhou para mim por uma fra??o de segundo. Ele abaixou a guarda para garantir que eu n?o seria pego no fogo cruzado.
Foi o erro fatal.
A lamina de Zack atravessou a garganta do meu pai. O sangue do Mago da Destrui??o espirrou no ar, respingando no meu rosto. Shin Wolford caiu de bru?os ao lado da minha m?e.
O ar sumiu dos meus pulm?es. O tempo parou.
No meio do meu trauma paralisante, ouvi um grito infantil atrás de mim. Virei o pesco?o mecanicamente.
Outro encapuzado havia passado pela linha de defesa e agora erguia uma cimitarra para decapitar a Princesa Telestia. A princesa chorava, abra?ada ao irm?o. O assassino nem sequer olhou para mim. Eu era apenas um menino inútil de Circuitos Verdes.
O desespero e a fúria colidiram dentro da minha alma.
[Aviso do Sistema]
Ativa??o Habilidade Extra: Instinto Superior.
Custo Crítico de Mana.
O mundo mergulhou em camera lenta. O som foi abafado. Agarrando a espada de carvalho negro que ainda estava comigo, usei cada gota dos meus 40 pontos de For?a. Impulsionei minhas pernas e voei em dire??o ao assassino. Ele n?o p?de reagir.
A pesada lamina de madeira negra n?o cortou; ela esmagou. O pesco?o do encapuzado quebrou com um estalo brutal, e o corpo dele voou inerte contra a parede, a poucos centímetros de Telestia. A princesa de 5 anos me olhou com olhos arregalados, n?o de medo de mim, mas percebendo que eu era o escudo dela.
Eu ofegava. O sangue dos meus pais estava quente no meu rosto. Minha alma estava rasgada. Eu n?o conseguia respirar por causa do choro entalado na garganta. A dor emocional era infinitamente pior do que o ácido que derreteu meu bra?o.
E ent?o, iluminando a escurid?o do meu luto com uma frieza robótica e cruel, a tela azul do Sistema piscou flutuando bem em cima do cadáver do assassino que eu acabei de matar:
[Humano Eliminado. +10 XP]
Eu encarei aqueles números. Matemática fria. O Sistema n?o ligava para as minhas lágrimas. Ele n?o ligava para os corpos de Shin e Sara.
Ouvi passos lentos. Olhei para o centro do sal?o. Os guardas reais finalmente estavam inundando o local, for?ando o recuo da Organiza??o das Trevas. Zack Wolford limpava o sangue da lamina no seu próprio manto. Antes de pular pelo buraco no teto de vidro para escapar na noite, ele parou.
Os olhos roxos e cruéis do meu tio encontraram os meus. Eu estava segurando uma arma, tremendo de ódio.
Zack sorriu. Um sorriso sádico e debochado. Um sorriso que dizia: "Nós vamos ter outra chance de brincar, sobrinho."
E ent?o, ele sumiu.
A fadiga do Instinto Superior, combinada com a dor de perder meu mundo inteiro em cinco minutos, esmagou a minha consciência. O sal?o girou, e eu desmaiei no meio do sangue e do caos.
No dia seguinte, o céu de Eldória chorou.
O funeral foi grandioso. Centenas de cavaleiros, magos e nobres abaixaram a cabe?a sob a chuva para demonstrar respeito por Shin e Sara Wolford. O Rei Aldric e a Rainha Angela fizeram promessas de justi?a.
Mas nada daquilo me importava. Eu estava parado em frente aos túmulos, usando roupas pretas, completamente sozinho no mundo. As lágrimas já tinham secado. O menino que queria ser forte para "dar orgulho aos pais" tinha sido assassinado no sal?o de baile.
Senti uma m?o macia tocar o meu ombro. Saphira Silford estava ali, segurando um guarda-chuva preto.
— Igris... — a voz dela era suave. — A minha comitiva parte para Sentostela hoje à tarde. Você... quer vir comigo para o palácio do meu reino?
Olhei para os túmulos, depois para os olhos púrpura da garota com o título de Visitante de Outro Mundo. Ela tinha um Sistema. Eu tinha um Sistema. Eldória, o Reino da Justi?a e das Leis lentas, n?o me serviria mais. Meu Instinto gritava que a única forma de atingir a for?a necessária para realizar o impossível era aceitar aquela oferta.
Voltei meu rosto para Saphira. A aura infantil havia desaparecido de mim para sempre.
— Eu vou.
Meu objetivo agora era simples. Eu iria para Sentostela. Eu ficaria forte. Eu abusaria das regras cruéis daquele Sistema até que meu corpo se partisse. E quando eu estivesse pronto,
eu encontraria a Organiza??o das Trevas.
E eu mataria o meu próprio tio.
[FIM DO CAPíTULO 5]

